Coisas da Pesca XIV

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- Parece que não anda cá nada…
- É verdade, ainda não tive um toque.
- Vai um cigarro?
- Não, obrigado, deixei de fumar há uns meses.

Sentado na falésia, dividindo a atenção entre a ponteira da cana e o acidental companheiro de pesca, Aristides passou em revista o dia em decidira deixar de fumar.

Que dia aquele…

Tinha partido de Lisboa, cedo, rumo à zona das Azenhas do Mar, para uma pescaria à bóia. Antes de estacionar o carro compreendera que o mar tinha embravecido nessa noite, o que inviabilizava a pescaria no local. Mesmo assim, parou, para ver se o movimento das areias tinha assoreado os pesqueiros. Quando entrou no carro, para rumar a outras paragens, nova surpresa. Tinha ficado sem bateria. Depois dos telefonemas da ordem e da espera pelo reboque para uma oficina entre a Malveira da Serra e Cascais, lá resolveu o problema. Seguiu, então, para a zona do Guincho e constatou que, também aí, o mar não estava capaz para o tipo de pesca que pretendia fazer.

Não lhe agradava muito a ideia de pescar na concorrida zona do Estoril, mas, em desespero de causa, concluiu que, dado o estado do mar, era a única opção possível. Arranjou um pesqueiro, numa lage ao lado da praia da Poça, preparou o material e começou a engodar. Quando se preparava para iniciar a pescaria deu de caras com um pescador de chumbadinha, a escassos metros, lançando o isco alegremente para a área engodada. Ficou em brasa… Mas, para evitar quezílias, abandonou o local rumo a uma outra lage, contígua à praia. Após a engodagem inicial e dois ou três lançamentos, constatou, desolado, que meia dúzia de surfistas entravam na água para aproveitar justamente o quebrar das ondas frente ao seu novo pesqueiro. Desistiu.

Entrou em casa visivelmente mal humorado. Livra!... Tinham-lhe acontecido uma série de contrariedades difíceis de imaginar numa só jornada de pesca. Mas, enfim, estava no aconchego do lar. Na semana seguinte a pescaria havia de correr melhor. Foi então que Jacinta, a mulher, lhe deu outra desagradável novidade.
- Roubaram o telemóvel ao Tiago.
- O quê!? Mas como foi isso?...
- Oh pai, foram uns miúdos mais velhos que me convenceram a passar-lhes o telemóvel para as mãos, para me ensinarem como é que eu havia de ouvir músicas e ver vídeos no aparelho…
- Grande palerma, o teu telemóvel não dava para isso. Lorpa! Não viste logo que era um truque?
- Não, pai.
- Paspalhão!... Agora ficas um mês sem telemóvel, para aprenderes.

Aristides acendeu um cigarro, à saída de casa. Ia dar uma volta a pé, para espairecer das emoções do dia mais enervante de que se lembrava. Quando ia a atravessar a rua, um indivíduo magro, com bigode e um boné na cabeça, dirigiu-se-lhe de mão estendida

- Estás bom!... Moras por aqui?...Arsitides correspondeu ao cumprimento, de testa franzida. Não se lembrava de tal criatura.
- Não me estás a conhecer, pois não?...
- Realmente, não…
- Vê lá se te lembras onde nos conhecemos?Aristides pensou que só podia ter conhecido a personagem no seu primeiro emprego, enquanto caixeiro de uma loja de ferragens.
- Na Torcato & Firmino?...
- Exactamente, pá! E agora, onde é que estás?
- Trabalho em seguros.
- Porreiro… Eu estou em Albarraque, na Tabaqueira.
- …
- Vê lá tu que tinha combinado com um tipo encontrar-me com ele para lhe vender dois pacotes de tabaco, a 10 euros cada, e ele faltou. Na companhia dão-nos uns tantos pacotes por mês e eu não fumo. Ia despachá-los…
-…
- Tu fumas?
- Fumo SG Filtro.
- Porreiro, pá, tenho desses. Queres ficar com dois pacotes?
- Pode ser…
-Anda, moro já ali. Afinal somos vizinhos.
- E, acto contínuo, o sujeito puxou do telemóvel.
- Vou avisar a minha filha, para descer com os pacotes.

Enquanto Aristides esperava que a filha do conhecido descesse com os pacotes de tabaco e que este regressasse de uma leitaria próxima, onde fora trocar a nota de 50 euros que lhe entregara, para efectuarem a transacção, acendeu mais um cigarro.

Passados dois ou três minutos, teve um baque. E se não houvesse filha, tabaco e troco
nenhum?... E se estivesse, para completar o dia, qual cereja em cima do bolo, a ser vítima de um esquema marado?... Inspirou uma enorme fumaça e sentiu o sangue a afluir-lhe à face.
De regresso a casa, acabrunhado por ter sido vítima de uma versão rasca do conto do vigário, invectivou-se por ter sido tão ingénuo. Devia ter desconfiado, logo no início, dado que não se lembrava daquela cara de lado nenhum. Depois, deixara que o fulano, habilidosamente, o levasse a indicar um local onde supostamente se haviam conhecido.

- Tóto! Grande totó!!!
- Disse, entre dentes, referindo-se a si próprio, enquanto abria a porta da rua.

Sentado no sofá, Aristides sentiu a mulher aproximar-se e debruçar-se sobre ele. Ela beijou-o carinhosamente e disse:

- Fizeste bem em mudar a tua decisão e prontificares-te a comprar um telemóvel novo ao Tiago, já amanhã. Ele é só um miúdo, coitadinho. Aposto que, na idade dele, também caías numa esparrela que te armassem.
- Na idade dele? Se calhar, ainda hoje… Olha, já gora, leva daqui o maço de tabaco e o isqueiro.

Vou deixar de fumar.


Coisas da Pesca XIII

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- Olá, André… Mas nem pareces tu… Estás um perfeito maltrapilho. E com a mochila às costas, com o balde e essa essa espécie de lança na mão, pareces saído de um daqueles filmes-catástrofe de Hollyood.
- Ora, Mafalda, fui simplesmente à pesca.
- Nota-se… Pfffuuuu, que cheiro a sardinha… E então, pescaste alguma coisa?
- Três sargos.
- Que peixes são esses? Mostra lá… Ah!, parecem umas douradinhas…

André convidou a colega de liceu para uma bebida no bar da praia. Arrumou o material a um canto, demorou-se a lavar as mãos e a cara, e depois sentou-se na mesa que a rapariga escolhera, junto à janela, com o mar em fundo.

- Não sabia que eras pescador. – Disse Mafalda, com aquele sorriso aberto que lhe acentuava umas curiosas covinhas na face, no enfiamento dos lábios, pequenos locais mágicos onde o rapaz perdia fatalmente o olhar, desde que a conhecera, na escola, há um par de anos.
- Então, não me olhes assim… Diz-me: quando é que te tornaste pescador?

André estava cansado da faina desportiva no fundo das arribas que enquadravam o areal. E descontraído. Uma descontracção que era um misto de lassidão e de profundo bem-estar. Ao longo de dois anos nunca fora capaz de dizer a Mafalda que a achava especial e que queria passar algum do seu tempo com ela, conhecê-la, planearem coisas juntos, serem íntimos. Enfim, curtirem.
E estava mergulhado nestes pensamentos quando se apercebeu da cara expectante da colega, da sua expressão intrigada, do seu olhar interrogador. Ah, sim, ela tinha-lhe perguntado qualquer coisa, não se lembrava já o quê, mas sabia que isso não tinha importância nenhuma face a tudo o que lhe queria dizer.
- Mafalda, excitas-me tanto…
- O quê!?... O que é que disseste?...

Raios, não era aquilo que queria dizer… ou se calhar era. Mas não era o que devia ter dito. Corou e começou a pensar como deveria emendar a mão. Mas as palavras pareciam sair-lhe da boca sem o crivo dos neurónios que lhe povoavam a cabeça. Pareciam ter vida própria… E voltou a surpreender-se e a ruborizar-se ainda mais com o que disse a seguir.
- Era capaz de fazer amor contigo durante horas e horas.
- André!!!...

Mafalda tinha a boca e os olhos muito abertos, uma expressão de incredulidade no rosto e as faces rubras como tomates.
André fixou atentamente a cara da rapariga, com a respiração suspensa de um movimento muscular da face da parceira. Como seria a reacção seguinte? Então notou que, na verdade, para além de ela ter a boca e os olhos muito abertos, uma expressão de incredulidade no rosto e as faces rubras como tomates, os cantos da boca estavam ligeiramente levantados, naquilo que era um leve sorriso. De súbito, descortinou que o sorriso se alargava um pouco mais. Então teve medo que o sorriso continuasse a crescer e que se transformasse numa gargalhada. E sentiu um forte aperto no peito. Depois, respirou de alívio ao ver que a reacção não ia no sentido da gargalhada. Mafalda fechou a boca, conservou o sorriso, aliás fez um outro sorriso, ficou com aquele ar doce que ele já lhe tinha descortinado em ocasiões anteriores e passou os olhos pelo mar, antes de dizer, quase num murmúrio.
- André, isso dito assim, de chofre, é um pouco chocante… Caramba, podias ter floreado mais a coisa. Sempre soube que tinhas um fraquinho por mim. Os teus olhares sempre te denunciaram. Enfim, estou um pouco perturbada e sem jeito, como compreenderás…

A partir daqui, a conversa já nada teve de imprevisível ou chocante. Prosseguiu num tom baixo, com os rostos próximos, as mãos movendo-se até se tocarem e entrelaçarem.

- Mas onde é que arranjastes os sargos? - Perguntou Mariana à filha.
- Foi o André que os pescou e mos deu. A propósito, ele vem cá estudar comigo, amanhã à tarde.
- Amanhã, filha… Logo quando eu vou à consulta, a Lisboa, e vou estar a tarde inteira fora?...
- O teste é depois de amanhã, mãe. Tem de ser. A Rita também é capaz de aparecer… – Disse Mafalda, estrategicamente de costas para Mariana e com um sorriso travesso a toda a largura da cara.


Coisas da Pesca XII

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Era uma terra onde não se passava nada. Situada num concelho onde nada de especial se passava. E numa região onde se passava muito pouca coisa. Era uma terra do fundo do Portugal profundo.
A última notícia daquela terra, publicada no jornal editado na sede do concelho, referia-se ao fecho da escola, “por insuficiência de alunos”. Um acto integrado na política de “racionalização do Ministério da Educação”. E destinado a defender os interesses desses mesmos insuficientes alunos, assegurando-lhes “uma maior socialização”, na escola da vila sede do município, a 23 kms de distância.

Até que um dia um acontecimento veio agitar a pacatez da aldeia. Asdrúbal Silva, o filho da Ti Augusta, viúva do Ti Adelino moleiro, sagrara-se campeão da primeira divisão do campeonato regional de águas interiores da associação de pesca desportiva da região.
A coisa deu brado.
- Então, vizinha, e agora que o seu marido é campeão, o que é que acontece?
- Agora, vai disputar o campeonato nacional. Vai andar pelo país todo, à pesca. Vai a Coimbra, a Penacova, a Chaves… - Explicou Isaurinda, impante de orgulho, à vizinha Custódia.
O feito não deixou o presidente da Junta indiferente.
- Temos de fazer qualquer coisa. - Disse Eufrásio para Euclides, o presidente do clube recreativo local.
- Devíamos organizar uma festa.
- Uma coisa assim como uma espécie de uma gala…
- Exactamente.

A festa foi preparada com o máximo desvelo. Assim como assim, a última coisa festiva que acontecera na terra fora o reatamento das missas dominicais na capela, havia dez anos. Em má hora, contudo. O jovem padre havia-se perdido de amores por uma paroquiana, a Joaquina da Várzea, e dera às de Vila Diogo levando a moça consigo para França.

- Euclides!, Euclides!, o presidente da Câmara está confirmado. - Gritou Eufrásio, da estrada.
Do fundo da leira, onde sachava umas batatas, o presidente do clube viu o seu conterrâneo agitar, esfusiantemente, um papel branco. Soube depois que o papel era o fax da confirmação.

No dia da festa da consagração de Asdrúbal Silva, a colectividade estava um brinco e engalanada a preceito. Encimando o palco, uma faixa azul com letras douradas marcava a cerimónia: “Viva o nosso campeão Asdrúbal”. O povo inteiro estava presente e a mesa era farta.

Primeiro, falou o presidente da colectividade. Salientou que “o feito do nosso Asdrúbal, honra o clube, a terra, o concelho e a região”. E enalteceu o carácter “de antes quebrar que torcer” do homenageado, classificando-o também de “desportista exemplar”.

Depois, falou o presidente da Junta.
- Isto é o fruto… sublinho, é o fruto... da nossa política desportiva. A qual nos levou a subsidiar a colectividade com mil euros. Qualquer coisa como duzentos contos, para V. Exas. perceberem melhor o alcance da nossa política.

Por fim, falou o presidente da Câmara. Disse que o apoio ao desporto era uma opção “estruturante” da sua vereação, apoio esse que se integrava numa “acção multidisciplinar” destinada “a combater a desertificação”. E que o concelho “podia não ser dos mais desenvolvidos, mas tinha filhos, caso do Sr. Asdrúbal, que elevavam bem alto a alma e a gesta dos naturais do município”.

Na quarta-feira seguinte, o jornal da sede do concelho deu conta da festividade, na primeira página, com um título a quatro colunas: “ Presidente da Câmara aposta no incremento desportivo da região”. E exibia uma foto do presidente da edilidade, no uso da palavra. A notícia, na página 3, era ilustrada com mais fotos do presidente da Câmara e uma do presidente da Junta. Aludia a uma política desportiva mais agressiva e comparticipada pelo município. No fim do texto, umas quantas linhas referiam-se à terra e ao homenageado.

- Oh Asdrúbal, mas que raio, tu não apareces no jornal em foto nenhuma! - Disse-lhe o compadre Teófilo, com os olhos postos na reportagem. Falam de ti só no fim e ainda por cima trocam-te o nome. Chamam-te Asdrúbal Costa, em vez de Silva…

Com um espírito filosófico só ao alcance dos grandes pescadores e dos homens de elite, Asdrúbal respondeu:
- Ora, compadre, isso é normal... Bem vê, os jornais têm de dar relevo às grandes personalidades. E não podem esmiuçar tudo. Se assim fosse, o repórter tinha que escarrapachar lá aquela frase do presidente da Junta, quando quis pôr a plateia em silêncio, antes de falar: “Ou se calam todos ou atiro-vos a porcaria da placa a entregar ao Asdrúbal e racho os cornos a algum…”


Coisas da Pesca XI

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- João, o que é que achas?...
- Ahn?... O quê?
- Não ouviste nada… Estavas a olhar para a Ludmila, outra vez.

João nutria uma paixão inconfessada, embora notória, pela bela e loiríssima Ludmila, a melhor aluna da escola secundária que frequentavam, numa vila costeira do litoral oeste. O facto de ocuparem turmas diferentes e a postura reservada e distante da jovem ucraniana dificultavam a aproximação.

- A minha prima anda na mesma turma da Ludmila. Se quiseres, eu falo-lhe e ela dá um toque àquela pedrinha de gelo.
- Não me chateies, Tomás. Não digas disparates.
- Pronto, meu, já não está cá quem falou. Olha, que me dizes a irmos ver a bola, no sábado. Jogam os juniores.
- Não posso, vou à pesca.

No bar da praia, a meio da tarde de sábado, João conferenciou com o velho Ernesto. O mirrado pescador reformado fez-lhe o ponto da situação.
- Apanharam uns robalotes, aí, durante a semana, com o mar bravo. Como o mar caiu, e como vais engodar, se fosse a ti, ia para a laje do canto da praia.
Embora não lhe agradasse muito o local, por ser demasiado exposto aos passeantes e aos mirones, João concordou com o velho marítimo e rumou à laje.

- Oh João, hoje é que sai o de cinco quilos! – Gritou Alexandre, um colega do pai, do passeio ribeirinho.
- O sítio é bom e o mar está de feição. - Comentou um velhote, de regresso de uma pescaria aos polvos.

Aturando as bocas de uns e outros, João deu início à pescaria. Afinal, o mar não estava assim tão “caído”. Tinha ainda um “toque” razoável, o que dificultava um pouco a acção de pesca. Em contrapartida, deixava a expectativa de entrada de peixe graúdo.

Ao terceiro lançamento, João ferrou um peixe. Acto contínuo, o carreto começou a “cantar”. O peixe começou a levar linha, numa corrida desesperada, perante os esforços do rapaz em manter a cana elevada e em calibrar adequadamente a embraiagem do carreto. A luta entre o jovem e o peixe ia-se prolongando, dando origem a que os passantes pelo caminho ribeirinho parassem para assistir à cena. O aglomerado cresceu, à medida que os minutos passavam sem se vislumbrar quem ganharia a partida.
- Vai perdê-lo. – Disse um, ao ver o peixe rumar para umas rochas meio submersas.
- Trabalhou bem. – Disse outro, ao ver que rapaz conseguira inverter a corrida do adversário.
- Vamos ver se o aguenta quando chegar à rebentação. - Disse um outro.
- Coitadinho do moço, Deus queira que o tire… - Disse uma senhora de idade, oriunda de uma excursão vinda do interior para ver o mar. Por essa altura, já uma cinquentena de excursionistas da terceira idade engrossava a multidão que se concentrava em redor do pesqueiro.

Quando João, por fim, enfiou os dedos nas guelras do respeitável robalo, depois de o ter conduzido para a praia, com a ajuda das ondas, a multidão ovacionou-o com uma estrondosa salva de palmas.

O rapaz tremia, ao tirar o anzol espetado ao canto da boca do robalo. Mais que a emoção do momento, perturbava-o a turba em redor. Foi então que ouviu, por entre a algazarra, muito perto de si, quase ao ouvido, as seguintes palavras:
- É tão bonito. Que pena ir morrer…
Aquela voz… O coração desatou-lhe aos pulos. Virou-se. Era ela… Era Ludmila.

Quase noite, no bar da praia, meia dúzia de pessoas comentava ainda, algo depreciativamente, a devolução do grande robalo à água. Do seu canto, o velho e mirrado Ernesto, cigarro ao canto da boca, até aí calado, disse, então:
- Pois sim… Ele libertou o robalo mas ganhou uma bela dourada! Eu bem o vi a sair do pesqueiro, ao pôr-do-sol. A ele e à loirinha. Muito juntinhos e de mão dada...


Coisas da Pesca X

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- Eu vou por aqui. É o acesso mais directo ao pesqueiro para onde quero ir.
- Estás maluco, Miguel. Por aí não há caminho…
- Ora, ora, Pacheco, no Cabo da Roca, na Azóia, tenho descido por arribas muito piores.
- Anda por aqui!… É mais longe, mas é mais seguro.
- Não te preocupes. Tenho que apanhar aquele pesqueiro.

Na ambulância dos Bombeiros Voluntários de Peniche, rumo ao Hospital das Caldas da Rainha, Miguel passou em revista os momentos dramáticos do seu voo contra as pedras da beira-mar.
Na sua temerária descida tinha-se visto na sufocante situação de já não conseguir prosseguir, porque a arriba fazia um pique inesperado. Mas pior tinha sido a sensação de impotência, ao constatar que também não era capaz de escalar a parte da arriba já transposta.
Lembrava-se que, repentinamente, ficara alagado em suor, enquanto um frio arrepiante se lhe entranhava pelo corpo. De súbito, sentiu a saliência pedregosa, onde tinha os pés apoiados, ceder. A primeira impressão que teve foi de alívio, por se acabar aquele impasse desesperante. Depois, foi tudo muito rápido…
Quando aterrou com o peito sobre uma rocha rectangular mais saliente, a sua primeira preocupação foi retomar a respiração. Tentava, tentava e… nada. Parecia que ia rebentar. Ao fim de muitos segundos, que lhe pareceram séculos, conseguiu finalmente inspirar. Primeiro um pouco, depois mais… e mais… e mais. Por fim, conseguiu normalizar a respiração. Então, desatou a gritar, como um louco, num reflexo incontrolado.
Passado pouco tempo, viu pescadores do mesmo concurso, no cimo da arriba, fazendo sinais para que se deixasse estar e dando a entender que os socorros vinham a caminho. Voltou-se. Olhou para o ponto fatídico. A falésia, um pouco mais abaixo, fazia uma concavidade. Como havia ele de conseguir descer pelo seu pé…
Entretanto, as dores começaram a manifestar-se. No peito, fortes. Nos pulsos. E no pé direito, já bastante inchado. Sentiu as costas molhadas, sinal que a garrafa de Coca Cola se havia partido, dentro da mochila, contra as suas costas, com o impacto.
Ouviu, ao longe, a sirene de uma ambulância. Voltou a olhar para o local de onde se despenhara. Compreendeu que tinha tentado virar-se, ao cair, e que batera com o calcanhar do pé direito numa saliência. Fora isso que fizera com que não aterrasse de pé, mas obliquamente. E quis o destino, bem ditoso, que uma rocha mais elevada que as outras, relativamente lisa, recebesse o impacto do seu peito, dando espaço a que os braços fossem projectados sem obstáculos.
Enquanto os bombeiros saltitavam de rocha em rocha, transportando a maca, olhou mais uma vez para o cenário do despenhamento. Teria a altura do dobro da sua cana telescópica, cerca de oito metros.

No hospital, ficou a saber que tinha três costelas partidas, uma rotura de ligamentos no pé direito, provavelmente também partido, e equimoses várias, no peito, nos pulsos e nas pernas. Mas a sua preocupação era outra. No regresso, quando os bombeiros o levaram ao encontro dos seus companheiros de pesca, conferenciou com eles e terminou, imperativo. - Está combinado. Ninguém pode falhar.

A caminho de casa, conferenciou com os bombeiros e terminou, taxativo. - Ficamos assim. Está combinado.

Quando Irene abriu a porta e viu os bombeiros subirem a escada, com o marido na maca, pensou que tinha acontecido o que tanto temia. Miguel caíra de uma falésia. Os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas. Como estaria?… E a coluna?… Teria partido ou ofendido a coluna?… Os bombeiros descansaram-na a esse respeito.
Quando perguntou o que acontecera, arrependeu-se dos seus preconceitos contra o desporto-vício do marido.
Afinal, segundo lhe contaram, antes do concurso de pesca, ao sair do café onde tomara o pequeno almoço, Miguel havia sido atropelado por um automobilista que, acto contínuo, se pôs em fuga. Infelizmente, uma coisa a que qualquer pessoa, nos tempos que correm, está sujeita…


Coisas da Pesca IX

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- Então, este fim de semana pescaste algum tubarão?
- Pesquei um tubaralho.
- Ordinário!…

Todas as segundas feiras era assim. Cátia, a ruiva e robusta directora de marketing, “picava” Pedro, jovem gestor de produto de uma moderna empresa da área financeira e entusiasta da pesca desportiva.

- Então, pescaste alguma sardinha?
- Não, mas arranja-se uma sarda.
- Ordinário!…

Pedro ansiava falar de pesca, e de muitas outras coisas, mas com Marta, a economista que estava à frente da contabilidade. Morena, frágil, calada, lânguida e com uns óculos finos, rectangulares, que o rapaz achava darem-lhe um ar extremamente sexy.
Sebastião, um colega mais velho, sabedor das preferências do jovem executivo, aconselhava-o:
- Foge das sonsas, pá… Foge das sonsas…
Mas Pedro já não dominava a inclinação que cada vez mais lhe corroía o íntimo e desatava a imaginação.

- Marta, tenho dois bilhetes para o concerto no Pavilhão Atlântico…
- Desculpa, mas não gosto do grupo, nem de grandes ajuntamentos.

- Tenho dois bilhetes para a estreia do último filme do Spielberg…
- Obrigada, mas não estou numa de ir ao cinema.

E era isto. As variadas tentativas de aproximação eram infrutíferas.
Entretanto…

- Então, apanhaste algum gambusino?
- Não, pesquei um safio e duas santolas.
- Ordinário!…

Uma segunda-feira, mal Cátia voltara costas, a recatada Marta dirigiu-se-lhe.
- Gostava de ir à Expo Sexo…
- Ahn?!… a…a…E vamos… Claro que vamos! – Disse Pedro, apardalado com o inesperado convite para o não menos inesperado evento.
Sebastião, no seu canto, martelando no teclado do computador, abanou várias vezes a cabeça.

No dia seguinte, Pedro surgiu pálido, abatido, como se o Mundo lhe tivesse desabado em cima, na noite anterior.
Sebastião olhou-o de soslaio e disse:
- Então gostastes dos artefactos de couro, do latex, do chicote e das algemas?
- Parece que és bruxo… Livra! Pirei-me a meio da noite. Quem havia de dizer…
- Eu avisei-te. As sonsas são sempre de desconfiar.

Na segunda-feira seguinte, Sebastião preparou-se para a habitual picardia, quando Cátia se aproximou de Pedro. Mas, para seu espanto, a jovem pôs os cotovelos em cima da secretária do colega, inclinou-se e começaram a cochichar.
Apanhou uma ou outra palavra solta, como “ontem”, “barco”, “azul”, “besugos”, “bom”. E à despedida, isso podia garantir, ela disse:
- Até logo, querido.


Coisas da Pesca VIII

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- Acabou! Daqui para a frente não quero estar condicionada pela porcaria da pesca durante as férias. - Disse Fernanda ao marido, no fim de uma temporada em Vila Nova de Mil Fontes.
- Mas, querida, que mal tem...
- Nem mas nem meio mas, António. Quero férias livres da pesca. Estou farta!

António, primeiro, ficou arrasado. Depois, pensou que ainda tinha alguns meses para convencer a mulher.
Em meados de Abril do ano seguinte, António estava à beira da derrota. A mulher permanecia irredutível. - Férias, sim. Mas sem pesca! – Lembrava-lhe ela regularmente.

Passados uns dias, o chefe enviou-o em missão de trabalho a Chaves. No regresso, António era outro homem.
- Fernanda, filha, este ano vamos de férias para as termas. Para as maravilhosas Caldas de Chaves. Tu tratas das tuas vias respiratórias. E eu dos meus problemas reumáticos das costas.
- Achas?… Mas isso é lá para o fim do mundo.
- Qual quê, mulher. Trás-os-Montes, hoje, fica a dois passos. E Chaves é uma cidade bonita, cheia de História, de museus, entre belas serras, com bons ares, boa gastronomia, com gente simpática e hospitaleira. E fica a uma dezena de quilómetros da Galiza…

Fernanda concordou. Sempre ficaria longe do mar e da malfadada pesca. Depois, as termas flavienses eram modernas. Até tinham serviços de SPA, como nos hotéis de luxo, com o benefício acrescido da água termal.

As férias começaram com um pequeno senão. Os tratamentos de Fernanda eram de manhã. E os de António, à tarde.
- Até calha bem. À tarde descansas dos vapores, como é recomendado. Dormes uma sesta. Também está muito calor. Depois, mais pela fresquinha, passeamos. – Sentenciara António.

Naquele princípio de tarde, Fernanda não conseguiu adormecer. Os tratamentos e os mimos do SPA tinham-na posto melhor que nunca. Apetecia-lhe girar. Apesar do calor, foi dar um passeio.
Atravessando despreocupada a ponte romana sobre o rio Tâmega, pensava que ao fim de muitos anos tinha umas férias a sério. Ainda bem que fizera o ultimato ao marido.
Foi então que olhou para a margem esquerda do rio, a montante da ponte. Lá estava um “maluco”, à pesca, num espaço relvado da margem que parecia preparado de propósito para o efeito. Até tinha uns nichos em pedra, para os pescadores se instalarem. “Forte coisa! Forte mania!”, pensou.
Foi então que teve um baque… Aquele pescador era-lhe familiar. Andou mais alguns metros. E mais uns tantos… Não havia dúvidas. Era o António.

Fernanda ficou vermelha, depois verde, depois branca. Teve vontade de ir ter com o marido e esbofeteá-lo, mas conteve-se. Passada uma hora de descanso, no frondoso Jardim Público de Chaves, estava mais calma. Esperou que o marido acabasse a pescaria. Seguiu-o. Constatou que deixava o material numa casa de artigos de pesca, a caminho do hotel. Tinha tudo bem congeminado, sim senhor.

- Então, como correram os tratamentos? - Perguntou Fernanda, com a maior das naturalidades, quando António chegou.
- Muito bem. Hoje foi duche escocês, seguido de duche-massagem de Vichy. As minhas costas já parecem outras.

Fernanda sorriu. Para que haveria de aborrecer-se a denunciar a tramóia do marido. Há coisas que têm muita força. E a pesca, sabia-o por experiência própria - oh se sabia!… - era uma delas.


Coisas da Pesca VII

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Aurora contemplou pela enésima vez a foto do bisavô emoldurada a um canto da sala de jantar. Era a reprodução ampliada de uma foto pequena, tirada há perto de cem anos. Nela, um mancebo de pé, com farta bigodaça e olhar penetrante, parecia desafiar o Mundo.
- Já não há homens assim!… - Dizia-lhe, frequentemente, a avó, também chamada Aurora, filha do bisavô André João, anarquista, carbonário e sindicalista revolucionário dos princípios do século XX.
- Não havia greve, intentona ou revolução em que ele não estivesse metido. – Contava-lhe a velha senhora, que muito cedo lhe desvendara a origem do nome Aurora. Era uma homenagem à consigna dos anarquistas: “E ao longe vem rompendo a nova aurora…”
- O que é a aurora? – Perguntava a então pequenita.
- É a claridade que antecede o nascimento do sol. – Explicava a avó. – Os anarquistas queriam com isso significar que a revolução social iria iluminar a vida dos proletários.
- O que é um proletário? – E a avó Aurora lá explicava o significado à neta com o mesmo nome. E a cada nova explicação sucedia-se nova pergunta.

Agora, Aurora já não era a criança que espantava toda a gente dizendo que quando fosse grande queria ser revolucionária, como o bisavô André João. Estava a meio do curso de Ciências Sociais e Políticas e ansiava por conhecer não o seu príncipe encantado mas o seu rebelde, intrépido e iconoclasta. Mas na faculdade e na vizinhança do bairro onde vivia não havia jovem que preenchesse os requisitos.

Naquelas férias, numa pequena praia do litoral Oeste, Aurora enfastiava-se de morte, na esplanada do bar do concessionário. Até os saloios, agora, se pareciam com os betos e os insossos dos grandes centros.
Foi então que reparou num rapaz alto. Nas costas da t-shirt ostentava uma inscrição curiosa. Torceu-se um pouco, para ver melhor, e leu:
Victoria o muerte!
Viva la revolution!
Rapidamente descobriu que o jovem era o pescador que costumava deambular pelo maciço rochoso do canto da praia.
Aurora começou a frequentar o local nesse mesmo dia.

Passada uma semana, Aurora e Vasco eram inseparáveis. Na pesca, na praia, no café e nos passeios nocturnos, que terminavam numa cabana de pesca pertença do avô do rapaz.
Todas as noites, quando se encaminhava para casa, Vasco dava graças por se ter enganado quando vestira a t-shirt que havia trazido de umas férias em Cuba.
Se tivesse vestido a que pretendia, com os dizeres “Um mau dia de pesca é melhor que um bom dia de trabalho”, nunca uma bela Aurora lhe teria iluminado tão intensamente a existência.


Coisas da Pesca VI

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- Veja, andam todas à volta do quilo e meio, dois quilos.
- Sim senhor. Belas corvinas. E apanhou-as onde?
- Em Santa Apolónia. É onde têm estado a sair mais.

Francisco tinha ficado a matutar nas corvinas que o pescador lhe mostrara, na loja da pesca. Durante a semana, imaginou várias vezes a sensação de tirar uma corvina, no estuário do Tejo. E rejeitou a ideia inicial de que aquela não era a sua pesca. Que diabo, embora preferisse a pesca ao corrico, não praticava ele, com alguma regularidade, os restantes tipos de pesca?…
Apesar de não lhe agradar muito a ideia de pescar em plena cidade, decidiu-se. No sábado seguinte a mulher ia visitar a mãe, adoentada, a Santa Maria da Feira. E ele iria, à tarde, tentar as corvinas, no cais próximo da doca do Terreiro de Trigo.

Francisco teve sorte. Conseguiu arranjar lugar com facilidade, junto a um pescador que tinha à sua conta oito canas baratas enfileiradas. Armou a sua Shimano Antares e o carreto Stella. Feito o primeiro lançamento, o pescador das oito canas aproximou-se, seguido de uma cachorrinha.
- Se quiser camarões vivos, tenho ali. Esteja à vontade. Enquanto pica e não pica, vou-me entretendo com os camaroeiros.
- Obrigado. E então, já apanhou alguma corvina?
- Uma. E os meus companheiros, que foram ali à tasca buscar umas bejecas, também já sacaram três. As minhas canas são só duas, o resto da tralha é deles.
Francisco achou graça ao ar castiço do homem e ao seu jeito de falar afadistado, típico das pessoas de Alfama. Baixou-se e fez uma festa ao canídeo.
- Como se chama a cadelita?
- Instituição.
- Instituição?!…
- Sim, é a quarta duma linhagem que começou com a Águia, prosseguiu com o Benfica e, depois, com o Glorioso, que é o pai.
Francisco riu, com gosto. A malta de Alfama era tramada.
- O amigo não trabalha ali na agência do BCP da Rua da Alfândega?
- Não. Sou engenheiro de sistemas informáticos numa multinacional, em Alfragide.
- Então é alguém parecido. Não faça caso, sr. engenheiro. Eu sou o Júlio, pintor, também conhecido pelo Trotinete. Uma alcunha de criança…
- Francisco Sá Rebelo, ao seu dispor.

A tarde, muito quente, correu rápida e divertida, com as graçolas do Trotinete, do Snack Bar, do Manivelas e do Porta-Chaves. E com a ajuda de muitas cervejas fresquinhas, regularmente solicitadas a uma tasca do Largo Chafariz de Dentro.
O jovem engenheiro integrara-se bem no espírito da coisa. Ao fim da tarde, com duas belas corvinas no saco, a voz já entaramelada e as pálpebras pesadas, decidiu que o convívio não acabaria ali. Assim como assim, a mulher só chegaria de madrugada. E convidou os companheiros de pesca a irem a sua casa provarem uns queijos e uns vinhos que tinha trazido de umas férias na Bretanha.

A meio da manhã seguinte, Francisco acordou com um grito estridente da esposa. Saltou da cama, equilibrou-se a custo, por causa de uma tontura, e foi encontrar a mulher, Teresa, técnica superior da Segurança Social, na marquise. Branca, sem fala, apontando para a máquina de lavar.
Francisco baixou-se e sentiu um forte odor a queijo. Espreitou e viu qualquer coisa a mexer. Assustou-se e recuou. Foi então que de dentro da máquina veio um som.
- Béu.
Era a Instituição.


Coisas da Pesca V

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- Então, D. Perpétua, o nosso Fábio lá pulou mais um ano na faculdade…
- E com grandes notas, D. Manuela. A nossa vizinha Olga nem sabe a sorte que tem.
- Ai, lá isso… Já não se vêem rapazes assim. Com 19 anos e nunca entrou numa discoteca.
- É verdade, a única distracção dele é ir com o pai à pesca, aos domingos. Ai… se a minha neta tivesse juízo…

Nesse preciso momento, o estudante do curso de Engenharia Física Tecnológica, do Instituto Superior Técnico, estava trancado em casa. E, agarrado a um livro, dava largas à sua tristeza. Estava de férias e sentia-se só. As hormonas não o deixavam descansado. Pediam-lhe companhia.
Mas ele era um tímido. Pior, era um desajeitado. E, uma vez mais, martirizou-se com a lembrança da frustrada tentativa de se integrar no grupo de surfistas e respectiva corte de betinhas, na praia mais próxima da sua casa, na linha do Estoril. A sua única experiência de cavalgar as ondas ficara-se por uma monumental cambalhota, um lenho na cabeça, um joelho esfolado e pelos olhares enjoados das queques que assistiram à cena.
Foi então que tocaram à porta.

- Ói, vizinho, sei que é pescadô e queria pedir-lhe se pescava minha blusinha, que caiu no quintau do rés do chão. E não tem ninguém lá. Cê quebra meu galho, quebra?…
Fábio quebrou. Subiu ao quarto andar (“do meu apartamento tem mais ângulo”, dissera a moreninha) e pescou a blusa da moça.
- Aceita um cafezinho?
- Ora essa, não quero incomodar.
- Comoda nada. Magina… Cê foi tão legau…

Quando Fábio desceu, duas horas depois, trazia novas cores e um sorriso de orelha a orelha. Qual tristeza qual carapuça…

Na semana seguinte, Fábio conheceu as restantes três emigrantes brasileiras do quarto esquerdo. Todas muito desastradas… Depois do favor a Ivaneide, teve de pescar uns collants a Lucilene, um sutiã a Jacira e umas calcinhas fio dental a Josineide.

Passado um mês, o rapaz, as quatro moças da história, mais 10 raparigas e quatro moços do país irmão (que Fábio entretanto conhecera nos bailes da Casa do Brasil em Lisboa) eram o grande factor de animação da praia antigamente dominada pela malta do surf.
Até que um dia, Jacira disse a Fábio:
- Leva os caniços, meu bem, vamos todos fazê uma pêscaria.
Os banhistas e os pescadores das lajes do canto da praia nunca tinham visto uma pesca assim. Sobretudo depois de Fábio puxar da máquina fotográfica digital. Todas as 14 brasileiras fizeram questão de posar, uma a uma, em biquini ou nem isso, de cana na mão, em poses sugestivas e atrevidas.

O Verão foi inesquecível naquela praia da linha. E até o bar do concessionário teve mudanças. O próprio Necas, o sem-abrigo arrumador no parque automóvel local, por norma azamboado e distante, reparou nelas.
- Ó Gilberto, até que enfim que tiraste daqui as fotos dos betos do surf e as substituíste por outras… Fiiiiiiiiiuuuu... Viva mas é a pesca!…


Coisas da Pesca IV

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- Ó pai, o Afonso disse-me que já posso ir outra vez a casa dele, para brincarmos. Posso?
- Podes, filho.
- Ó pai, porque é que eu não podia lá ir, nem ele vir cá?
- Foi um mal-entendido, filho. Já não interessa.

O “mal-entendido” tinha ocorrido uns meses antes, à porta do colégio. Libório tinha ido esperar o filho e cruzara-se com o Sr. Gonçalves, em igual missão. Corria o mês de Novembro de 1979 e estava-se em véspera de eleições.
- Sr. Libório, por amor de Deus, você traz um autocolante dos comunistas ao peito!…
- E depois, Sr. Gonçalves, estamos num país livre e democrático…
- Lindo!!!… Conversa típica de comuna. Nunca pensei… E tem você o miúdo num colégio particular. Ponha-o mas é na escola do Estado. Lá é que é o lugar para a prole de tipos como você.
- Ó Sr. Gonçalves, a falar dessa forma vê-se que o sr. é um grandecíssimo reaccionário.
- Reaccionário, eu?!… Pois que seja. O que isto precisava era de outro Salazar, para palermas como você andarem na linha.
- Palerma, eu?!… Seu… seu… fascista. Fascista é o que você é!
- Comuna!… Vá mas é para a Rússia. E pensar que o seu filho ia lá casa e o meu à sua. Acabou! Vão para a Rússia!… Não quero misturas.
O Sr. Aires, que todos os dias ia buscar o neto, ainda tentou apaziguar as coisas. Em vão.

A azáfama era grande na secção de pesca de um popular clube da Linha de Sintra. Organizar um concurso para cerca de 400 pescadores, no litoral sintrense, era obra. Por isso, ninguém prestou muita atenção quando o presidente da secção anunciou a inscrição de um novo membro.
O concurso correu bem.
- Então, como é que ficou a nossa equipa? – Perguntou um dos pescadores do clube organizador a um outro.
- Ficou bem, pá, fazemos o primeiro ou o segundo lugar. O Gonçalves fez sexto, o Miguel décimo terceiro e o Ferreira décimo sétimo. Mas o melhor foi o pescador novo. Fez segundo.
- Não conheço esse tipo. Não esteve no sorteio da Azóia.
- Não. Parece que esteve no da Foz do Falcão. Eu também não o conheço. E creio que mais ninguém o conhece, à excepção do velho.

A entrega dos prémios tinha acabado de encerrar quando o seccionista, o velho Sr. Aires, disse para o Gonçalves:
- Traz aí a taça do segundo lugar, que o pescador novo só chegou agora. Olha, vai entregar-lha.
Gonçalves avançou em direcção ao pescador novo, que, de costas, depois das apresentações, era felicitado pelos companheiros de secção.
- Ora aqui tem a sua taça. Logo à primeira você foi o melhor do clube, hem! Isso é que foi. Mas… mas… é você?!…
- Você, por aqui?!…
- Bom, tome lá. Pa… pa… parabéns, Libório.
- Obrigado… companheiro Gonçalves.
Após se terem cumprimentado, desajeitadamente, ficaram a olhar um para o outro. Então, um deles abriu os braços. O outro fez o mesmo. E trocaram um longo abraço, temperado por fortes palmadas nas costas.

Num canto da sala, o Sr. Aires sorria. E a sua cara era a imagem da perfeita beatitude.


Coisas da Pesca III

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Procópio Silva, setenta e muitos anos, passava parte do dia sentado no sofá, a contemplar os netos, enquanto recuperava de um AVC.
- Oh avó, de vez em quando o avô olha para nós e diz baixinho: “Fiz bem”. Outras vezes está a olhar através da janela e diz: “Não sei se fiz bem se fiz mal”.
- Não liguem, são coisas de velho. – Disse a avó, a D. Idalina.

Sentado no sofá, Procópio Silva visitava o passado de forma recorrente. Especialmente o baile de abertura da época de Verão de 1960, na sociedade recreativa do bairro.
- A menina dança?
Ela disse que sim. Ela era Ana Margarida, uma vizinha muito recente. E que vizinha! Loura, olhos azuis, lábios carnudos, busto generoso e pernas de fazer inveja a muitas coristas do então glorioso Parque Mayer.
A “química” foi imediata.
Procópio sabia que tinha agir rapidamente. Daí a pouco chegaria Idalina, a sua namorada, nem feia nem bonita, nem loura nem morena, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra. Era tão só “uma boa rapariga”, como frisava diariamente a D. Maximina, a mãe de Procópio.
À sexta dança, ele fingiu uma indisposição.
- Não sei o que é isto, mas dói-me o peito. Vamos para o jardim apanhar ar.
O “jardim” da colectividade era tão só um quintalito. Mas enquanto Ana Margarida lhe esfregava o peito e lhe acariciava o rosto, ele sentia-se nos jardins do Palácio de Queluz.
- Ah, já estás melhor!… – Disse ela, quando sentiu as mãos dele amarinhando dentro da blusa.
Passados alguns minutos e meia dúzia de beijos ardentes, Procópio, imaginava-se já não em Queluz mas nos jardins de Versalhes. Ofegante, tratou de combinar um encontro para o dia seguinte, um domingo.
Iriam à outra banda, à Trafaria, para um pic-nic na mata adjacente. A Idalina que arranjasse outro…

Foi então que surgiu o Ilídio, o fanhoso lá da rua.
- Ô Pffffcópio, ‘ens ‘ma chamada no ‘abinete da ‘irecção.
Era o Santana.
- Eh pá, tá a dar linguado na Cova do Vapor. Apanhei mais de 20, todos acima do meio quilo! Uma loucura!….

Num canto da sala, um moça nem feia nem bonita, nem loura nem morena, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, sorria, triunfante. No canto oposto, Procópio Silva desfazia-se em explicações a uma loira desolada e à beira de um ataque de choro.

Santana fechou a porta da cabine do telefone público. A caminho de casa ia pensando por que raio a Idalina lhe tinha pedido que telefonasse para a sociedade e dissesse ao Procópio que estava a dar linguado na Cova do Vapor. Não estava a dar nada, tirando uma ou outra faneca pequena…


Coisas da Pesca II

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João Péricles da Fonseca, escriturário principal numa empresa de importação, era um pescador semanal, durante o ano, e diário, durante as férias na Ericeira.
Tinha um sonho…
Pescar um robalo de, pelo menos, cinco quilos.
“Quando o pescar, vou guardar o anzol toda a vida, como recordação. E nem que me pagassem sei lá o quê me desfazia dele!”, dizia para o seu amigo José Fagundes da Cunha, também ele pescador e veraneante na Ericeira.
Num dia de férias, tarde alta, já os pescadores saíam do molhe, João Péricles da Fonseca, tomado por súbita inspiração, foi tentar a sorte, à bóia.
“Vens tarde, João, já deu”, disse-lhe um, já de abalada.
“Aí!?… Ainda se fosse lá mais à ponta”, disse-lhe outro, também a caminho de casa.
Mas João Péricles da Fonseca não se desconcertou. Parecia que uma chispa divina o iluminava.
E no molhe, sozinho, ao fim de dois lançamentos, num pesqueiro improvável, peixe ferrado, linha a cantar no carreto…
João Péricles da Fonseca, começou a tremer, a suar, a sentir a boca seca e o coração aos saltos. Mas, apesar de tudo, lá bem no fundo, estava calmo. Sereno como uma rocha. E só pensava: “É hoje, é agora!”.
Foi.

No dia seguinte, correu para o café onde sabia ir encontrar José Fagundes da Cunha. E, de chofre, disse-lhe: “Toma!”. Acto contínuo, passou-lhe para a mão um anzol, explicando-lhe que era o “ferro” que lhe tinha permitido a captura do seu primeiro robalo de cinco quilos.
“Mas João, tu dizias que ias guardar o anzol até ao fim dos teus dias, como se fosse uma preciosidade…”, retorquiu-lhe, incrédulo, José Fagundes da Cunha.
“Pois dizia, mas esta noite, esperto pela excitação, pensei, pensei e decidi que tu é que deves ficar com ele”.
“Mas porquê?”.
“Porque quando o peixe ficou “morto”, depois da luta, eu fiquei sem saber o que fazer… E então lembrei-me que tu uma vez disseste-me que se tal te acontecesse, nem que tivesses que esperar horas, não te precipitavas e esperavas por ajuda. Ora, na altura não estava lá mais ninguém. Esperei, esperei e quando vi uma pessoa a passar, junto ao Clube Náutico, gritei-lhe”.
“Mas ó João…”
“Nem mas, nem meio mas. Quando a minha ajuda me pediu o chalavar… não o tinha… Fiquei branco. Mas, então lembrei-me que uma vez me disseste que num caso daqueles, o que havia a fazer era ir buscar um a um dos barcos estacionados no porto. E lá pedi ao homem para o ir buscar. Depois de esperarmos um mar favorável, o meu improvisado ajudante conseguiu descer as pedras do molhe e enredá-lo no chalavar…”
“Mas ó João…”
“Nem mas, nem meio mas, pá. Se não fosses tu, com as tuas dicas, quando imaginávamos como seria tirar um robalo grande no molhe, eu não o tinha tirado, Ficas com o anzol e ponto final”.

Desde então, dentro um móvel com trofeus de pesca, José Fagundes da Cunha guarda, em lugar destacado, numa caixinha almofadada de ourivesaria, o tal anzol.
E, numa das paredes da sua casa, devidamente emoldurada, uma fotografia, em acção de pesca, do seu amigo João Péricles da Fonseca.
E quando alguém lhe pergunta quem é o personagem, José Fagundes da Cunha responde: “Um grande e bom amigo. Uma daquelas grandes amizades que só se fazem na pesca…”


Coisas da Pesca I

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A D. Lurdes e a D. Otília, vizinhas de longa data, descobriram na sala de espera do Centro de Saúde da zona que os respectivos maridos tinham uma paixão comum: a pesca.
- Sra. D. Otília, em boa ora o meu marido arranjou esse bendito entretém!
- Acha que sim Sra. D. Lurdes!?…
- Acho. Ai, faz-lhe muito bem!… Acalma-o e distrai-o. Mesmo em casa, pois anda por lá todo entretido a empatar anzóis e a fazer aquilo que ele chama de montagens, ou lá o que é… Olhe enquanto está entretido não me chateia, não se mete nas minhas coisas, não implica.
- Pois, D. Lurdes, eu maldigo a hora em que o meu marido decidiu dedicar-se à pesca. Nunca mais saiu comigo ao Domingo, passa os Sábados enfiado na loja da pesca, e durante a semana anda nas nuvens, à espera que chegue a pescaria e ocupado nessas coisas das montagens, ou lá o que é…
- Ora, mas isso é um descanso…
- Qual descanso, é um corte quase total de comunicação. Olhe, é pior que o futebol!
- Não diga isso! Olhe que a pesca faz muito bem…
- Faz, faz… Olhe, o meu marido está cheio de artroses, por passar os Domingos sentado à beira rio, de cana na mão. E tem a coluna que é uma miséria, por causa da francesa…
- O quê, ele tem uma francesa?… Não será brasileira, ucraniana…
- Por amor de Deus, D. Lurdes, não é nada disso!… É por causa da pesca à francesa, que é feita com canas de 13 metros. Um exagero, um disparate, uma maluquice.
- Pois, quanto a isso, o meu Adérito, às vezes, queixa-se das costas, mas eu acho que é mais culpa de passar a semana alapado à secretária…
- O quê, não me diga que ele e a secretária…
- Não, não… Quero dizer sentado, sentado à secretária…
- Ah…
- Seja como for, eu acho que a vida ao ar livre faz muito bem. A pesca, faz muito bem.
- Faz, faz… E então à carteira!!! Se visse a tralha de pesca que o meu Herculano tem…. Acho que gasta mais do que se tivesse uma francesa, brasileira ou ucraniana de carne e osso.
- Ora, D. Otília, os homens têm que se entreter.
- Sim, sim, mas porque é que ele não vai correr, ou fazer cicloturismo, ou natação, que são coisas saudáveis. E, assim, até eu ia com ele. Isso, sim, isso são desportos. Agora a pesca, por amor de Deus…
- Ora essa, tanto que é desporto que o meu marido até é federado. E todos os anos tem de arranjar uma declaração médica a garantir que está apto a praticar esse desporto.
- Desporto, a Sra. está a chamar desporto a um… a um… vício!!!
- Olhe, se é vício, sempre é melhor que o tabaco ou a bebida!
- Sorte a sua, pois o meu Herculano não só pesca, como bebe e fuma. Pfff… como é que assim sendo se pode considerar desportista.
- Ai vizinha, não me diga nada que o meu Aderido também fuma que nem uma chaminé…
A partir daqui, a conversa deixou a pesca e encaminhou-se para o rol de riscos tabágicos, incluindo os vários cancros possíveis e imaginários. E acabou com a chamada da D. Lurdes para a consulta.
Eu infelizmente, ainda tive que esperar mais meia hora para ir mostrar as radiografias das minhas costas miseráveis. Por causa da francesa… Como diria a D. Otília.


Sobre mim...





  • Nome: Jorge Eusébio Tomé
  • Nascido a: 21/1/1952
  • Naturalidade e residência: Lisboa
  • Profissão: Jornalista de comunicação institucional
  • Preferências piscatórias: Pesca de bóia (mar e rio)

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