Coisas da Pesca II


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João Péricles da Fonseca, escriturário principal numa empresa de importação, era um pescador semanal, durante o ano, e diário, durante as férias na Ericeira.
Tinha um sonho…
Pescar um robalo de, pelo menos, cinco quilos.
“Quando o pescar, vou guardar o anzol toda a vida, como recordação. E nem que me pagassem sei lá o quê me desfazia dele!”, dizia para o seu amigo José Fagundes da Cunha, também ele pescador e veraneante na Ericeira.
Num dia de férias, tarde alta, já os pescadores saíam do molhe, João Péricles da Fonseca, tomado por súbita inspiração, foi tentar a sorte, à bóia.
“Vens tarde, João, já deu”, disse-lhe um, já de abalada.
“Aí!?… Ainda se fosse lá mais à ponta”, disse-lhe outro, também a caminho de casa.
Mas João Péricles da Fonseca não se desconcertou. Parecia que uma chispa divina o iluminava.
E no molhe, sozinho, ao fim de dois lançamentos, num pesqueiro improvável, peixe ferrado, linha a cantar no carreto…
João Péricles da Fonseca, começou a tremer, a suar, a sentir a boca seca e o coração aos saltos. Mas, apesar de tudo, lá bem no fundo, estava calmo. Sereno como uma rocha. E só pensava: “É hoje, é agora!”.
Foi.

No dia seguinte, correu para o café onde sabia ir encontrar José Fagundes da Cunha. E, de chofre, disse-lhe: “Toma!”. Acto contínuo, passou-lhe para a mão um anzol, explicando-lhe que era o “ferro” que lhe tinha permitido a captura do seu primeiro robalo de cinco quilos.
“Mas João, tu dizias que ias guardar o anzol até ao fim dos teus dias, como se fosse uma preciosidade…”, retorquiu-lhe, incrédulo, José Fagundes da Cunha.
“Pois dizia, mas esta noite, esperto pela excitação, pensei, pensei e decidi que tu é que deves ficar com ele”.
“Mas porquê?”.
“Porque quando o peixe ficou “morto”, depois da luta, eu fiquei sem saber o que fazer… E então lembrei-me que tu uma vez disseste-me que se tal te acontecesse, nem que tivesses que esperar horas, não te precipitavas e esperavas por ajuda. Ora, na altura não estava lá mais ninguém. Esperei, esperei e quando vi uma pessoa a passar, junto ao Clube Náutico, gritei-lhe”.
“Mas ó João…”
“Nem mas, nem meio mas. Quando a minha ajuda me pediu o chalavar… não o tinha… Fiquei branco. Mas, então lembrei-me que uma vez me disseste que num caso daqueles, o que havia a fazer era ir buscar um a um dos barcos estacionados no porto. E lá pedi ao homem para o ir buscar. Depois de esperarmos um mar favorável, o meu improvisado ajudante conseguiu descer as pedras do molhe e enredá-lo no chalavar…”
“Mas ó João…”
“Nem mas, nem meio mas, pá. Se não fosses tu, com as tuas dicas, quando imaginávamos como seria tirar um robalo grande no molhe, eu não o tinha tirado, Ficas com o anzol e ponto final”.

Desde então, dentro um móvel com trofeus de pesca, José Fagundes da Cunha guarda, em lugar destacado, numa caixinha almofadada de ourivesaria, o tal anzol.
E, numa das paredes da sua casa, devidamente emoldurada, uma fotografia, em acção de pesca, do seu amigo João Péricles da Fonseca.
E quando alguém lhe pergunta quem é o personagem, José Fagundes da Cunha responde: “Um grande e bom amigo. Uma daquelas grandes amizades que só se fazem na pesca…”


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Sobre mim...





  • Nome: Jorge Eusébio Tomé
  • Nascido a: 21/1/1952
  • Naturalidade e residência: Lisboa
  • Profissão: Jornalista de comunicação institucional
  • Preferências piscatórias: Pesca de bóia (mar e rio)

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