Coisas da Pesca VI


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- Veja, andam todas à volta do quilo e meio, dois quilos.
- Sim senhor. Belas corvinas. E apanhou-as onde?
- Em Santa Apolónia. É onde têm estado a sair mais.

Francisco tinha ficado a matutar nas corvinas que o pescador lhe mostrara, na loja da pesca. Durante a semana, imaginou várias vezes a sensação de tirar uma corvina, no estuário do Tejo. E rejeitou a ideia inicial de que aquela não era a sua pesca. Que diabo, embora preferisse a pesca ao corrico, não praticava ele, com alguma regularidade, os restantes tipos de pesca?…
Apesar de não lhe agradar muito a ideia de pescar em plena cidade, decidiu-se. No sábado seguinte a mulher ia visitar a mãe, adoentada, a Santa Maria da Feira. E ele iria, à tarde, tentar as corvinas, no cais próximo da doca do Terreiro de Trigo.

Francisco teve sorte. Conseguiu arranjar lugar com facilidade, junto a um pescador que tinha à sua conta oito canas baratas enfileiradas. Armou a sua Shimano Antares e o carreto Stella. Feito o primeiro lançamento, o pescador das oito canas aproximou-se, seguido de uma cachorrinha.
- Se quiser camarões vivos, tenho ali. Esteja à vontade. Enquanto pica e não pica, vou-me entretendo com os camaroeiros.
- Obrigado. E então, já apanhou alguma corvina?
- Uma. E os meus companheiros, que foram ali à tasca buscar umas bejecas, também já sacaram três. As minhas canas são só duas, o resto da tralha é deles.
Francisco achou graça ao ar castiço do homem e ao seu jeito de falar afadistado, típico das pessoas de Alfama. Baixou-se e fez uma festa ao canídeo.
- Como se chama a cadelita?
- Instituição.
- Instituição?!…
- Sim, é a quarta duma linhagem que começou com a Águia, prosseguiu com o Benfica e, depois, com o Glorioso, que é o pai.
Francisco riu, com gosto. A malta de Alfama era tramada.
- O amigo não trabalha ali na agência do BCP da Rua da Alfândega?
- Não. Sou engenheiro de sistemas informáticos numa multinacional, em Alfragide.
- Então é alguém parecido. Não faça caso, sr. engenheiro. Eu sou o Júlio, pintor, também conhecido pelo Trotinete. Uma alcunha de criança…
- Francisco Sá Rebelo, ao seu dispor.

A tarde, muito quente, correu rápida e divertida, com as graçolas do Trotinete, do Snack Bar, do Manivelas e do Porta-Chaves. E com a ajuda de muitas cervejas fresquinhas, regularmente solicitadas a uma tasca do Largo Chafariz de Dentro.
O jovem engenheiro integrara-se bem no espírito da coisa. Ao fim da tarde, com duas belas corvinas no saco, a voz já entaramelada e as pálpebras pesadas, decidiu que o convívio não acabaria ali. Assim como assim, a mulher só chegaria de madrugada. E convidou os companheiros de pesca a irem a sua casa provarem uns queijos e uns vinhos que tinha trazido de umas férias na Bretanha.

A meio da manhã seguinte, Francisco acordou com um grito estridente da esposa. Saltou da cama, equilibrou-se a custo, por causa de uma tontura, e foi encontrar a mulher, Teresa, técnica superior da Segurança Social, na marquise. Branca, sem fala, apontando para a máquina de lavar.
Francisco baixou-se e sentiu um forte odor a queijo. Espreitou e viu qualquer coisa a mexer. Assustou-se e recuou. Foi então que de dentro da máquina veio um som.
- Béu.
Era a Instituição.


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Sobre mim...





  • Nome: Jorge Eusébio Tomé
  • Nascido a: 21/1/1952
  • Naturalidade e residência: Lisboa
  • Profissão: Jornalista de comunicação institucional
  • Preferências piscatórias: Pesca de bóia (mar e rio)

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