- Acabou! Daqui para a frente não quero estar condicionada pela porcaria da pesca durante as férias. - Disse Fernanda ao marido, no fim de uma temporada em Vila Nova de Mil Fontes.
- Mas, querida, que mal tem...
- Nem mas nem meio mas, António. Quero férias livres da pesca. Estou farta!
António, primeiro, ficou arrasado. Depois, pensou que ainda tinha alguns meses para convencer a mulher.
Em meados de Abril do ano seguinte, António estava à beira da derrota. A mulher permanecia irredutível. - Férias, sim. Mas sem pesca! – Lembrava-lhe ela regularmente.
Passados uns dias, o chefe enviou-o em missão de trabalho a Chaves. No regresso, António era outro homem.
- Fernanda, filha, este ano vamos de férias para as termas. Para as maravilhosas Caldas de Chaves. Tu tratas das tuas vias respiratórias. E eu dos meus problemas reumáticos das costas.
- Achas?… Mas isso é lá para o fim do mundo.
- Qual quê, mulher. Trás-os-Montes, hoje, fica a dois passos. E Chaves é uma cidade bonita, cheia de História, de museus, entre belas serras, com bons ares, boa gastronomia, com gente simpática e hospitaleira. E fica a uma dezena de quilómetros da Galiza…
Fernanda concordou. Sempre ficaria longe do mar e da malfadada pesca. Depois, as termas flavienses eram modernas. Até tinham serviços de SPA, como nos hotéis de luxo, com o benefício acrescido da água termal.
As férias começaram com um pequeno senão. Os tratamentos de Fernanda eram de manhã. E os de António, à tarde.
- Até calha bem. À tarde descansas dos vapores, como é recomendado. Dormes uma sesta. Também está muito calor. Depois, mais pela fresquinha, passeamos. – Sentenciara António.
Naquele princípio de tarde, Fernanda não conseguiu adormecer. Os tratamentos e os mimos do SPA tinham-na posto melhor que nunca. Apetecia-lhe girar. Apesar do calor, foi dar um passeio.
Atravessando despreocupada a ponte romana sobre o rio Tâmega, pensava que ao fim de muitos anos tinha umas férias a sério. Ainda bem que fizera o ultimato ao marido.
Foi então que olhou para a margem esquerda do rio, a montante da ponte. Lá estava um “maluco”, à pesca, num espaço relvado da margem que parecia preparado de propósito para o efeito. Até tinha uns nichos em pedra, para os pescadores se instalarem. “Forte coisa! Forte mania!”, pensou.
Foi então que teve um baque… Aquele pescador era-lhe familiar. Andou mais alguns metros. E mais uns tantos… Não havia dúvidas. Era o António.
Fernanda ficou vermelha, depois verde, depois branca. Teve vontade de ir ter com o marido e esbofeteá-lo, mas conteve-se. Passada uma hora de descanso, no frondoso Jardim Público de Chaves, estava mais calma. Esperou que o marido acabasse a pescaria. Seguiu-o. Constatou que deixava o material numa casa de artigos de pesca, a caminho do hotel. Tinha tudo bem congeminado, sim senhor.
- Então, como correram os tratamentos? - Perguntou Fernanda, com a maior das naturalidades, quando António chegou.
- Muito bem. Hoje foi duche escocês, seguido de duche-massagem de Vichy. As minhas costas já parecem outras.
Fernanda sorriu. Para que haveria de aborrecer-se a denunciar a tramóia do marido. Há coisas que têm muita força. E a pesca, sabia-o por experiência própria - oh se sabia!… - era uma delas.
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